Entrevista #8 – Lobo Borges

Dando continuidade a nossa série de entrevistas com ilustradores de Pernambuco, trazemos hoje o queridíssimo Lobo Borges, ilustrador de games na Joy Street, e também quadrinista. Isso mesmo, pasmem! Há um tempo atrás, falamos do trabalho da editora Jambo, a HQ Ledd, que se passa no universo do RPG nacional Tormenta. Lobo foi o responsável por ilustrar as páginas da HQ e também por ter um pézinho nas histórias. Abaixo você vai saber  um pouco mais sobre a criação do projeto e como é feito a concepção dos seus trabalhos.

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MarcoZero: Só por curiosidade, Lobo Borges é teu nome mesmo?

Lobo: Nope. Meu nome é Rodolfo. Eu que me apelidei de lobo pra poder começar a trabalhar como desenhista. Eu fui pesquisar sobre a origem de meu nome e vi que tinha lobo metido no meio. Ai eu coloquei XD

MZ: Conta pra gente como foi a tua introdução nesse mundo da ilustração.

Lobo: Eu acho que é aquela velha história do moleque que sempre desenhou e que sempre teve vontade de poder trabalhar com isso. Mas quando eu completei 18 anos, não tinha segurança de que esse era um caminho viável pra mim. Aí eu fui fazer licenciatura em física, lá na UNICAP. Depois de terminar o curso, eu saí perturbado do juízo e resolvi que queria trabalhar com desenho. Foi aí que entrei em contato com o Trevisan e mostrei meu blog pra ele. Não tinha muita coisa boa por lá, mas ele acabou gostando porque estava em uma onda de animes e mangás. Ele tava começando a se aventurar por esse meio. Eu acho que dei sorte de chegar na hora certa, e foi ai que ele me chamou pra começar Ledd.

MZ: Quando que isso aconteceu?

Lobo: Eu comecei a trabalhar como quadrinista e ilustrador no começo de 2011. Foi quando eu entrei pra design na UFPE também. Mas acabei deixando o curso no meio por não me identificar muito.

MZ: Você saberia nos dizer os motivos pelos quais você não se identificou com o curso de design?

Lobo: Então: a estrutura do curso, alguns professores, as disciplinas… Foi uma série de elementos que me fizeram desistir do curso. Teve também o fato de que o outro ilustrador da empresa estava saindo e eu estava como estagiário lá. Aí eu vi uma oportunidade de virar CLT e que iria de encontro a continuar no curso de design…

MZ: Tu acha que o curso é pouco voltado pra prática e por isso foi pouco interessante pra você?

Lobo: Isso. Eu senti falta de alguma vertente no curso que fosse mais para o campo em que trabalho. Cheguei a conclusão de que eu poderia aprender mais de outras formas: com outros desenhistas e também com os cursos online que são oferecidos por pessoas de fora do Brasil. Estudar como esses caras trabalham me ajuda bastante.

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MZ: Sabemos do seu início nos quadrinhos. Como você começou a trabalhar com games?

Lobo: Quando eu estava na UFPE, eu participava de uma laboratório de games. De lá, teve um amigo que fez uma indicação para a empresa que trabalho hoje, GDR Lab, que é organizado pelo professor André Neves. Do GDR eu fui pra Joy Street trabalhar como ilustrador.

MZ: A gente achou bem interessante essa tua versatilidade de lidar com HQ e game. Tu vê muita diferença em trabalhar com esses dois mundos ou tem mais semelhanças do que parece?

Lobo: Eu acho que eles tem muitos pontos de convergência. Conhecimentos de narrativa, composição, colorização, finalização, etc. Eu acabo usando nos dois mundos, mas essas eram coisas que eu não estava aprendendo dentro do curso de design.

MZ: Massa, deu pra entender mais um pouco sobre o que tu queria dizer. E as diferenças entre trabalhar com HQ e game?

Lobo: Uma diferença grande é a possibilidade criativa. No quadrinho, eu sou co-autor, eu tenho mais liberdade pra criar. Já trabalhando com games eu estou vinculado a uma empresa e lá a gente tem diretrizes como público alvo, limitações das máquinas que rodam o jogo em games… Eu tenho que lidar com uma gama maior de conhecimentos que vão de esboço até animação. Trabalhando com games, o cara tem que sempre se atualizar nas ferramentas. Desde que comecei nessa área, eu ganhei experiência em trabalhar com Flash, Photoshop, Illustrator. Game me permite estudar mais coisas. Quadrinhos me consomem mais.

MZ: Tem algum trabalho que tu curtiu muito fazer e te marcou de alguma forma?

Lobo: Como eu estou a pouco tempo no mercado, eu acho que Ledd é o trabalho mais importante até agora. Ele é meu primeiro trabalho, como co-autor pra um universo que já tem uma certa fama no brasil.

MZ: Ledd foi tua primeira HQ ou tu já tinha feito algumas coisas pequenas e próprias?

Lobo: Trabalhar com quadrinhos no Brasil tem dessas complicações, né, velho. Profissionalmente, Ledd é o meu primeiro trabalho. Eu nunca tinha feito uma HQ antes. Em questão de periodicidade, a gente tem tentado melhorar esse intervalo de 1 ano entre as publicações, mas tá foda conseguir porque além do quadrinho eu tenho o trabalho na Joy e o Trevisan tem outros trampos dele.

MZ: Como foi pra tu isso?

Lobo: Na verdade eu tentei fazer uma adaptação pra HQ de uma aventura de RPG de tormenta. Esse foi um desafio, ilustrar um universo tão conhecido como a tormenta e que sou fã do cenário desde dos 14 anos. Foi quando conheci o que era RPG. A princípio, Ledd não se passaria em tormenta. O Trevisan tomou essa decisão depois de conversar com o Marcelo Cassaro, que é um dos criadores do cenário. Casso perguntou pra ele por que ele não usava tormenta como mundo base pra Ledd e ele achou uma boa ideia. Como eu sou fã da parada, foi uma das coisas mais fodas que já me aconteceu.

MZ: E o nome surgiu como? Tem algum significado especial?

Lobo: Esse era o nome que tava no primeiro documento de argumento da história que o Trevisan tinha escrito há uns 10 anos. Eu acho que não teve nada especial na escolha do nome do protagonista. Eu sei que ele tem mania de colocar o nome dos personagens com uma letra repedida: Ledd, Drikka, Ripp, Kashii, XD aaaaahh e ele curte muito futebol e usa nome de jogadores antigos pra dar nomes a alguns personagens. O Trevisan mesmo usando o universo de tormenta sempre deixou claro que queria expandir o que existia e criar coisas.

MZ: Muito legal. Como funciona esse processo criativo… Existem dois responsáveis pela HQ? Mais alguém te ajuda na criação dos quadros e finalização?

Lobo: A parte pesada fica com a gente. Ele escreve os roteiros, textos no balões e onomatopeias; e eu cuido da parte de arte, desde do esboço até a arte final. Como sou daltônico, a gente contrata uma colorista pra colorir a primeiras páginas. Ela mora no Piauí e se chama Alyne Leonel. A diagramação também fica com o Trevisan.

MZ: Certo, mas como é esse processo mais de perto? Tu pesquisa, fica de bobeira até surgir uma imagem que tu ache legal…

Lobo: O nosso processo é mais ou menos assim: Trevisan escreve o roteiro e a gente discute junto. Daí ele faz correções e a me passa a versão final. Depois vem o meu processo de esboço. Eu leio algumas vezes o roteiro e começo a fazer esboços de composição de página e o que realmente precisa aparecer. Então eu mostro pro Trevisan e a gente discute o esboço. Feito isso, eu começo a produção das páginas em si. Hoje meu trabalho é todo digital. Eu uso o Mangá Studio 5 pra fazer os esboços das páginas e em cima deles eu começo a definir melhor o que tem em cada página. A gente chama isso de “lápis”, mesmo sendo digital XD Nessa página a “lápis” a gente dá uma última checada pra ver se realmente é aquilo que a gente quer. Daí eu parto pro processo de arte final, que envolve finalizar digitalmente pra ficar parecido com nanquim e colocação de retículas e balões. No caso dos balões, eu os deixo em branco e ele faz o letramento. Ele sempre acaba mudando uma coisa ou outra do texto pra se adequar mais a imagem. Sim, a gente conversa muito. A gente gera muita ideia doida, principalmente eu, mas o Trevisan sabe escolher o que é melhor pra gente continuar a produção sem perder o foco.

 

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MZ: E no teu trabalho, o que te influenciou e o que te influencia?

Lobo: Eu gosto muito de mangás. Cresci vendo a TV Manchete (que Deus a tenha) e acho que isso me marcou muito. Eu gostava muito de Fly, o pequeno guerreiro, e de jogos de RPG. Como a maioria vinha do mercado japonês, eu acabei pegando gosto pela coisa. Atualmente, eu gosto de alguns desenhistas: Masashi Kishimoto, Kentaro Miura, Takeshi Obata, Eiichiro Oda, Naoki Urasawa… Eu acho que esse caras são os que eu mais curto quando o lance é mangá. Com relação aos jogos eu tento ver um pouco de tudo pra sacar o que a galera anda produzindo.

MZ: Olhando agora pros dois mundos, o de quadrinhos e o de games, quando tu sente que chegou no ponto de tirar o lápis de cima do papel e dizer “ficou foda”?

Lobo: Essa é uma coisa que eu aprendi apanhando nesses 3 anos na profissão. Eu nunca tô satisfeito na verdade com o resultado final, mas o Trevisan me ajudou muito a entender que não dá pra ficar lambendo muito a mesma realidade. Acontece na empresa que trabalho. Aí a coisa que mais me preocupo pra poder dizer que posso largar o trabalho é se as pessoas conseguem entender o que tá ali, se a imagem atingir a função de comunicar o que ele quer passar pra mim, já é um bom indicador.

MZ: Sobre o mercado de ilustração, o que tu achas e o que tu poderia dizer para quem está começando agora?

Lobo: Eu acho que uma boa dica é estudar por onde você quer começar ou procurar um canto onde seu estilo se adeque. Hoje não existe mais esse lance de você é de Pernambuco ou do Amazonas e não vai conseguir trabalho porque os caras bons tão em São Paulo. Muitos ilustradores que conheço trabalham como freelancers e vivem bem. O lance é o cara saber se direcionar no mercado, saber por onde pode entrar e fazer uma social. Sem contatos você não consegue nada. Outra coisa é saber direcionar o trabalho. Eu sabia que a galera de tormenta curte mangás e animes e resolvi arriscar ali. Não adianta você não ter essa pegada e tentar trabalhar no New York times, saca? Rapaz, tem espaço pra todo mundo. E hoje em dia muita gente trabalha como freelancer. O lance é não desistir e tá sempre estudando pra melhorar e fazer uma rede de contatos.

 

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Co-fundador e Editor de Conteúdo - Formado em Design Gráfico.

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  1. Caio Lima

    12 agosto

    Ótima entrevista, o trabalho do Lobo é fantástico!

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