Entrevista #5 – Raoni Assis

Entrevistamos Raoni Assis, o ilustrador do belíssimo (e tão comentado) cartaz da sede Recife para a Copa do Mundo FIFA 2014. Mas além desse projeto, descobrimos que o seu processo criativo se mistura curiosamente com imaginação de histórias. Dos tempos sem Google, suas inspirações foram enciclopédias e revistas doadas de amigos e parentes. Raoni também é um dos responsáveis pela Casa do Cachorro Preto, o que o nos permite chamá-lo de empreendedor (mesmo que ele não tenha muito essa intenção).

Abaixo, vocês poderão conhecer mais sobre a incrível trajetória do talentoso Raoni Assis.

MarcoZero: Raoni, como foi teu início com desenho?

Raoni: Acho que a maioria da galera que desenha deve começar do mesmo jeito, que é desenhando. Todo mundo rabisca alguma coisa quando é “pirraia”. Tem uns que gostam e continuam. Não tem muito segredo. Você curte e vai fazendo e estudando esse processo.

MZ: Quais foram tuas principais influências no começo?

Raoni: Tenho um filho de 1 ano e cinco meses. Outro dia, eu tava com ele e minha mãe e a gente tava curtindo uma bagunça. Aí ela começou a rabiscar num papel, brincando com ele e tal. Ela fez duas bolas, tipo um oito, e dois triângulos em cima: já eram as orelhas, um gato. Ela desenha isso do mesmo jeito desde que eu era esse pirraia que meu filho é hoje. Lembro muito direitinho desse gato. Achei muito engraçado quando ela desenhou e disse: “Travei aqui e nunca mais saí disso. Quando tu começou a desenhar melhor que eu, ai eu parei” . Acho que minha mãe é a primeira referência que eu tenho, porque acho que foi com ela que comecei a ter noção de que poderia riscar e criar alguma coisa.

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MZ: Ainda nessa busca por referências… Você lia muita HQ quando criança ou assistia mais a desenhos animados? Porque observando aqui teus desenhos, existe uma fluidez que me lembra muito o “The Wall” do Pink Floyd, ilustrado por Gerald Scarfe.

Raoni: Os dois. Nós somos suburbanos e minha mãe me teve muito nova. Morávamos com meus avós e mais quatro tios. A família sempre foi muito próxima. Como eu curtia ficar vendo os desenhos e as imagens nas revistas, nas enciclopédias e tal, todo mundo sempre trouxe HQs e eu sempre assistia muito desenho animado. Hoje em dia o horário infantil deu uma desaparecida da tv, mas eu assisto ainda.

O The Wall marcou muito, vamos até exibi-lo no cineclube da Casa do Cachorro Preto. Lembro daquele clipe foda também, mas já foi depois. O “Do The Evolution” marcou muito o meu traço, eu acho, e o tema também. As vezes me pego desenhando umas cenas dele. Eu curtia muito enciclopédia quando era mais novo. Não tinha internet ainda e quando apareceu também não era grande coisa. Viajava nas “galerias de arte” dos livros de história e tal, uma coisa meio virtual. E tinha uma que era meio direcionada pra art nouveau, e tinha Klimt, Schiele, Lautrec… Os caras tinham essa de ser desenho e ser arte e ser rabisco. Daí fui conhecendo muita coisa por curiosidade, porque quando você se declara como apreciador de algum assunto, todo mundo vem pra mostrar alguma coisa. Esse diálogo é que é o mais construtivo, porque é a informação filtrada especialmente pra você. A pessoa viu aquilo e lembrou de tu e geralmente ela tava certa. Conheci Alphonse Mucha e um monte de outros nesse esquema. Amigos, amigos dos amigos, amigos da família… Ganhei muito livro e revista velha. Ayode é um amigo muito próximo que sempre desenhou muito fodasticamente, sempre influenciou muito. A mãe dele era minha professora na alfabetização. Ele é uns anos mais velho, poucos, mas o suficiente pra ter mais prática que eu. A maioria dos quadrinistas que conheci foi por influência dele. Miller, o cara do Hellboy também (Como é o nome desse filho da puta?) Enfim… Muita coisa veio dessa vivência. Shiko é um cara que é muito cheio de referências também. Conheci o bicho faz uns anos, acho que uns 10 já, e no primeiro dia ele já me apresentou Banksy e uma carrada de coisa. Nesse último jogo fui pra João Pessoa visitar meu filho e fomos lá na casa de Shiko. O cara tem os melhores quadrinhos. A seleção que só quem tem muito gosto consegue fazer.

MZ: Quando você percebeu que a ilustração podia ser uma carreira?

Raoni: Eu queria ser biólogo, veterinário, cientista, ateu (se fosse profissão), quis ser muita coisa. Fazia todas as experiências de Beakman – lembram de Beackman? – Sempre desenhando, mas era uma coisa meio paralela, não achava que podia viver disso (e eu tava certo na época). Mas na terceira série, acho que eu tinha uns 9 ou 10 anos, teve uma edição de dia das crianças do Jornal do Commercio e eles convidaram as escolas pra participar. As escolas selecionavam um texto de algum aluno e mandavam. Enfim, não lembro como era o processo. Sei que fiz um texto sobre reciclagem e fui selecionado. Daí a gente ia dar uma volta lá no jornal. Quando cheguei na parte de arte, achei aquilo muito foda: uns três “caba” desenhando e falando merda. E aí eu comecei a rabiscar com um deles (que eu não lembro quem era) e ele falou pra mulher que acompanhava a gente que eu desenhava bem e que seria uma boa usar umas ilustrações minhas nesse caderno. A galera trouxe os textos dos outros pirraias e eu fui desenhar. Não sei se essa foi a primeira ou a vez mais importante, e que me fez querer seguir, mas foi marcante. Será que ainda existe isso? Vou ver se acho isso no JC.

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MZ: Como é teu processo criativo?

Raoni: Eu não tenho muito método. Passo o dia rabiscando e anotando umas idéias. Passo muito tempo na internet vendo coisas aleatórias. Quando era criança via muito aquele “ciência hoje para crianças” , Super Interessante, depois aquela Mundo Estranho. Hoje eu vejo um mói de site, quase que o dia inteiro. Fico, às vezes, com a TV ligada e muda, o som rolando uma musiquinha e o computador e o celular no colo. 9gag, entensity, omgposters, ateísmo & peitos, ffffound, gostosa.tumblr, flickr… Sempre pesquiso nesses e em mais um “mói”.

MZ: Diz uma coisa, qual o trabalho que tu mais gostou fazer?

Raoni: Não sei… Acho que nenhum específico. Tenho um carinho muito grande pela Casa do Cachorro Preto. Tudo que a gente faz lá é com muito empenho. Acho que é um processo criativo muito foda. Mas agora que vocês me perguntaram me veio um. Tô fazendo um quadrinho agora e acabei caçando umas coisas pra referência, aí achei um que fiz pra Ragú Cordel que chama azul marinho. Fiz o texto meio rimado e tal com a ajuda de Adiel Luna, e o quadrinho preto e branco. Gosto muito dele. É uma peça massa. Já trabalhei em editora, em jornal, revista… Acho que eu não gosto muito da pressa que envolve a maioria das produções. Tem prazo e tem que cumprir, mas eu gosto mesmo de pensar muito no assunto e de desenvolver a idéia. Acho que se desse, eu ficava só nessa parte. Sem finalizar nunca. Acho que é por isso que eu tô curtindo essa história da Casa do Cachorro. Porque ela está sempre em desenvolvimento e não acaba.

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MZ: Aproveitando a deixa, fala um pouco mais da tua relação com a Casa do Cachorro Preto?

Raoni: Eu morava na casa, começa por aí. Era uma casa muito engraçada, sem teto e sem nada. Lá atrás tinha um matagal e uns trocentos quilos de lixo. No começo éramos eu, zeus (o cachorro preto), Bruno (um amigo meu) e Ravi (meu primo). Curto jardim e tal e fui nessa “instiga” de ajeitar a casa pra curtir mesmo. Nisso apareceu muito amigo pra ajudar e sempre rolava umas farras, música, umas conversas até de manhã e tal. Tinha uma mesa de sinuca e a galera animava. Aí a gente foi pegando gosto e começou usando a sala lá na frente pra expor os trabalhos dos amigos. Botou uma galera tocando na outra sala, começou a fazer uns eventos, a casa foi tomando forma e foi expulsando a gente e usando todos os cômodos. Hoje eu moro na casa vizinha. Em março fez dois anos de casa. No começo eu ainda morava lá. Eu ainda não sei muito qual é a minha função aqui, mas é uma coisa de cuidar mesmo. Sempre tem muita gente chegando junto, muito amigo, a família inteira, uns chegados… Como a gente não tinha nenhuma referência e foi inventando, ainda ficamos nessa de ir construindo aos poucos. Ainda sou eu que cuido do jardim, por exemplo. A gente começou a chamar Carlito, que é um cara foda que cuida do jardim e da casa aqui perto, mas aí não deu pra segurar os custos e eu voltei a limpar o quintal. Mas tudo nessa de ir se adaptando e tentando segurar a onda.

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MZ: A ideia era fazer uma coisa legal pros amigos e acabou tomando forma, crescendo, né?

Raoni: Na verdade, acho que cresceu mais porque as pessoas foram ocupando a casa e esperando outras coisas da gente. Não tinha muito espaço pra galera expor, ainda não tem, daí a gente tentou fazer e segurar essa barra.

MZ: Cara, daqui há uns 50 anos, vão olhar para vocês e dar um nome de um movimento artístico. Isso que vocês estão fazendo é história.

Raoni: Tomara que escolham um nome massa. Hehehe. Tudo é historia. Tem essa coisa de que tudo é historia, isso é massa, é uma parte muito importante do processo criativo. Tenho um tio, um dos cinco filhos que moravam nessa casa lá em Rio Doce, Saulo de Tarso. Ele sempre contou muitas histórias, sempre interpretou bem as coisas. Não sei como explicar, mas é uma coisa de olhar mesmo, ele vê as coisas de outro jeito. Ele presta atenção ao mundo que vai passando em volta dele e conta pra gente. Sempre foi uma figura muito marcante, cheio de tatuagem e tal, casado com um outro cara (só depois é que eu fui saber que isso era diferente, pra mim era normal) e o jeito que ele encaixa os começos, os meios e os fins nas histórias é que fazem a diferença. Acho que desenhar e escrever e toda forma de comunicação vem dessa base da contação das histórias. É o motivo do desenho rupestre, é tentar descrever pra quem não estava lá pra ver do seu ponto de vista, que vem como todas as suas referências que você foi catando. Aí vira uma história completamente diferente da que aconteceu na realidade, mas não deixa de ser real, acho que é por ai. Um parêntese que eu queria fazer pra esse parente, é bem importante pra mim. Intelectualidade não tem nada com a academia, é uma coisa muito mais de vivência eu acho.

MZ: Como foi desenvolver a ilustração para o cartaz da sede Recife da Copa do Mundo FIFA?

Raoni: A historia da FIFA foi meio no susto. João, da Macplan, recebeu o convite pra participar do concurso da arte desse pôster. Parece que cada agência podia mandar duas propostas. Aí ele entrou em contato, disse que curtia meu trabalho e tal, e perguntou se eu não queria fazer uma das propostas deles. Deu o mote, que era essa coisa do passista jogando bola e eu fui rabiscando. Não teve muita interferência. Ele curtiu e aprovou e Ramona, que trabalhava lá na época, fez a finalização pro formato e tal. Fiz meio descompromissado. Acho que minha ideia era mais a de mandar alguma coisa com um pouco da cara das coisas daqui, do que ganhar o concurso (até porque não ganhava nada além da exposição midiática). Aí fiz um cara “guenzo”, meio pescador, meio “maloqueiro”. Nas regras do processo ficava tudo muito travado e fechado. Aí eu dei umas ignoradas e fiz o que eu achava que talvez rolasse, aí rolou. Foi massa. É uma divulgação legal pro trabalho. Fui comprar um presente numa loja infantil outro dia e tinha um quebra-cabeças com o desenho. Tem selo nos correios, camisa, banner…. Fizeram tudo.

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MZ: Raoni, conta pra gente o que tu acha do mercado de ilustração daqui de Pernambuco.

Raoni: Rapaz, eu acho o mercado muito travado. As pessoas deviam arriscar mais. Inventar mais. O que acontece de uma forma geral entre os empresários e empreendedores é identificar um formato que deu certo em não sei onde, não sei quando, e reproduzir isso como se fosse abarcar todos os méritos do que o original se fez. Aí isso repercute nos desenhos e nas ilustrações dentro das editoras e tal, até os prédios descomunais e sem necessidade, com cara de banheiro e contrastando com a cara da cidade. A própria publicidade daqui é bem feia. Umas coisas se salvam e se empenham, mas no geral é tudo muito engessado.

MZ: Tu teria alguma dica pra essa galera?

Raoni: Talvez investir mais em si mesmos em vez de só copiar. Acho que podia começar largando mão dessa idéia de conquistar o mundo e começar a fazer parte dele, ter mais opinião e reproduzir menos. Se expor ao risco, se expor ao ridículo em vez de ridicularizar, acho que é por aí.

Confira mais trabalhos do Raoni:

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Para ver mais ilustrações, acesse seu Flickr.

 


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