Entrevista #3 – Ianah Maia

Nós do MarcoZero temos muito orgulho de ser de onde somos. Também somos orgulhosos daquilo que fazemos, que é falar sobre coisas que admiramos e gostamos. Querendo unir as duas coisas, resolvemos cair em campo e iniciar uma série de entrevistas com jovens ilustradores da nossa região.

Para iniciarmos as entrevistas, conversamos com a ilustradora recifense Ianah Maia, que neste momento passa uma temporada em Buenos Aires, na busca por aprimorar aquilo que nos fez convidá-la para o papo: suas obras. Eu (Rodrigo Cavalcanti), Diego de Luna e Luciano Alpes falamos com ela sobre sua carreira, os clientes e o mercado de ilustração em Pernambuco. Esperamos que vocês curtam.

Charles_ianah_web_905

 

MarcoZero: Ianah, você era daquelas crianças que desenhavam o tempo todo? Conta um pouco pra gente como começou tua história como ilustradora.

Ianah: Eu não sei dizer desde quando comecei a desenhar porque, como todo mundo, também tive aulas de arte no jardim de infância. O lance é que eu não quis mais parar de desenhar. Na verdade, me profissionalizar foi uma decisão que tomei logo depois de ter tido a cadeira de ilustração na faculdade.

 

MarcoZero: Você se recorda de alguma arte ou artista que te inspirava?

Ianah: Quando eu era mais nova, acho que tinha muita influência dos mangás que eu assistia, mas não era consciente. Atualmente sim, tenho muitas influências. Mas tem duas artistas que impulsionaram a minha profissionalização. Uma foi a Loish, que conheci quando usava o DeviantArt, e a outra foi a Kei Acedera. Hoje em dia, eu admiro bastante as artes de Mucha, Matisse, e dos contemporâneos, Moon, Os Gemeos, Shiko, Rosana Urbes, os gemeos Moon e Bá, Liniers, Alejandra Lunik… A lista segue ao infinito…

HanselyGretel03_ianah_web_905

HanselyGretel01_ianah_web_1_905

 

MarcoZero: É notável um toque de doçura nas tuas ilustrações, puxando um pouco para o traço infantil. Vemos isso na arte feita para a banda Kalouv, que eu tenho o CD e adoro a sensação que a ilustração trás. Você poderia nos contar um pouco de como foi o processo criativo desse trabalho?

Ianah: Eu já conhecia os meninos da Kalouv, antes mesmo de montarem a banda. Somos bem amigos até hoje, então isso facilitou bastante todo o processo. Eles me deixaram livre para criar o que eu quisesse e me mandaram as músicas para inspiração. Nesta fase, eles ainda não tinham escolhido o nome do álbum, e eu decidi fazer algo baseado na música Sky Swimmer, que eu havia curtido bastante. Foram vários sketches e ideias, mas todas giravam em torno de gigantes e lugares silenciosos. Na época eu estava bem viciada em fazer pessoas com pernas grandes, então optei por um gigante com pernas eternas, um caminhante dos céus, que de lá de cima, escuta o silêncio e a música que existe nele. Então, fiz o rascunho à mão e colori digitalmente. Além da capa do disco, o trabalho ainda rendeu um wallpaper, alguns adesivos e também a arte do site.

Capa-Ep-Kalouv_FRENTE_ianah_maia_905

 

MarcoZero: Um outro trabalho massa teu, é “A Festa de Isaac”, uma animação feita para A Banda de Joseph Tourton. Conta pra gente como foi fazer esse trabalho.

Ianah: Este foi meu projeto de conclusão de curso. O processo de criação foi bem parecido com o da Kalouv: eles me enviaram o disco pra que escutasse e escolhesse uma música, e eu criei o roteiro baseado em imagens que me vinham à mente de acordo com cada parte da música. Primeiro fui pensando nos ambientes, depois nas situações que aconteciam neles, e por último como acontecia a transição de um pro outro. A partir daí comecei a fazer o processo de pré-produção: storyboard, animatic (que é um storyboard em formato de video), conceito dos personagens, cenários e as primeiras animações.

[vimeo]http://vimeo.com/29545510[/vimeo]

 

MarcoZero: Qual foi o tempo, e qual a maior dificuldade que encontrou neste projeto? Você contou com a ajuda de mais alguém?

Ianah: Ao todo, levei 1 ano e meio para concluí-lo. Acho que a maior dificuldade foi a própria animação, onde chegava uma hora em que tudo se tornava cansativo e repetitivo de fazer. No meio do processo eu até quis desistir! hahaha. Com relação à ajuda, tive sim. No início eu queria fazer tudo só, até por que não tinha grana pra pagar ninguém pra isso. Mas depois, eu vi que na faculdade você precisa de uma quantidade “x” de horas extras pra poder se formar. Daí passei a oferecer um certificado com essas horas extras pra galera das outras turmas de animação que quisessem me ajudar com esse projeto. Acabei tendo ajuda até de estudantes de design, cada um na sua casa, fazendo ao seu tempo, e eu ia coordenando eles por email. A maior parte da ajuda foi pra colorização das animações. Tive ajuda de três colegas de turma para animar também. Ter essa ajuda foi essencial pra terminar o projeto porque eu estava bem sem vida social e a ponto de desistir dele. Mas, sabe, isso é meio que um ciclo. Todo animador independente começa empolgado, vai desanimando no meio do processo, encontra forças alienígenas pra terminar e quando termina fica satisfeito e querendo fazer mais, hahaha.

 

MarcoZero: Você nos disse que na faculdade decidiu se tornar ilustradora. Qual sua formação e o que aconteceu pra te ajudar a tomar essa decisão?

Ianah: Cinema de animação. Fui da primeira turma da AESO, e agora parece que esse curso nem existe mais lá. Na faculdade, na verdade, eu decidi ser diretora de arte de animação, o que no fim das contas, é ser ilustradora. Acho que porque vi que gostava dessa função, de criar visualmente mundos inteiros a partir do nada, dar vida à personagens e universos… Também por que eu vi que animação chega um ponto que eu perco a paciência, e ilustração é um lance que eu curto cada milésimo de segundo, que eu fico debruçada sobre a prancheta.

Jeneci_Virada_ianahmaia_web_905

SagarannaPoster_ianah_maia_905

 

MarcoZero: A tua ida para Buenos Aires tem a ver com estudos na área? Quanto tempo vai ficar por aí?

Ianah: Sim! Vim justamente me especializar nisso. Estou fazendo dois cursos aqui: um mais voltado pra pintura realista e outro mais voltado pra experimentação. Os dois são focados em narrativas para livros (infantis, principalmente) mas não se limita a só isso. Meu primeiro trabalho pro curso foi justo um cenário pra uma animação (Assista). Mas te dizer que tou curtindo muito esse lance de criar ilustras sequenciadas para uma história! Fico por aqui até o fim do ano, pelo menos. O que tem me matado de tanta saudade de Recife.

01_Circulo-de-Te_ianah_maia_905

 

MarcoZero: Partindo para os clientes, como você lida com eles? Eles que te acham? 

Ianah: Eles chegam até mim de várias maneiras. Tem vezes que é por indicação de conhecidos, outras é através de postagens que viram no facebook, por causa de emails que enviei e também já teve gente que me achou perdida pela web. Trato quase tudo por email e às vezes, quando existe uma necessidade de brainstorm, ou de uma conversa mais pessoal, partimos para uma reunião via skype.

 

MarcoZero: Saberia nos dizer qual o melhor e o pior cliente com quem já trabalhou?

Ianah: Acho que o mais legal até agora foi o que me deixou totalmente livre pra criar e ainda por cima pagou o preço justo. O mais chato, acho que foi o que até agora não me pagou nada, haha.

 

MarcoZero: Haha. Ianah, e o que tu acha do mercado de ilustração de Pernambuco?

Ianah: Acho que é parecido com o que acontece pelo mundo todo, salvo as devidas proporções (Recife é um ovo, não se esqueça). Tem muita gente talentosa e o pouco trabalho que aparece, geralmente ficam nas mãos de umas mesmas pessoas. Mas acho que ilustrador nenhum deve se limitar a um mercado só, ainda se tratando de uma área que dá pra se trabalhar à distância. Mas pra quem gosta de estabilidade e trabalhar em lugares físicos, Recife tá com cada vez mais empresas de games que precisam de bons ilustradores.

 

MarcoZero: Você ja chegou a pegar trabalhos de fora do Brasil?

Ianah: Sim, claro, já peguei trabalho aqui na Argentina (por razões óbvias) e alguns trabalhos menores pra fora. Existem várias plataformas pela web que são uma mão na roda pra quem é freela, como é o caso do freelancer.com. Em plataformas assim dá pra você pegar trabalhos fora e ganhar em dólares! :)) Mas o trabalho que fiz recentemente foi através de conhecidos também. Na primeira casa que morei aqui em Buenos Aires, dividi o apartamento com duas meninas do Texas, que quando voltaram pra lá me falaram dessa banda de amigos delas que estavam precisando de um cartaz pro show. Foi sensacional fazer esse trampo por ser pra fora, por ser através de amizades que fiz aqui e por ser pra música, que é minha área predileta, haha.

Poster_Canvas_People_MAY30web_905

 

MarcoZero: Pra terminar, queria que tu nos dissesse se tem alguma ideia de quando é o ponto ideal de um trabalho. Se tá na qualidade que tu curte, se vai ser legal ver aquilo. Aquele ponto em que você olha e diz: “pô, isso tá legal agora”.

Ianah: Rapaz, difícil! Geralmente eu sei que terminei uma arte quando eu me afasto dela, vou dar uma volta, vou tomar um chá e quando volto pra ver, não tenho vontade de mudar nada; ou acho que “se melhorar, estraga”.

 

MarcoZero: Mais uma coisa. Tem alguma pessoa que você gostaria de mencionar que tem uma importância na sua carreira de ilustradora?

Ianah: Lá vou eu fazer a lista de agradecimentos! Haha! Ela é bem grande, prepara:
Meus professores da faculdade Mauricio Nunes, Silvio Ribeiro e William Paiva, por terem me instigado pra essa área e terem aberto minha mente de principiante. Ao meu ex-chefe (Mascaro) e aos meus ex-colegas do Diário (Greg, Jarbas e Silvino) pela paciência e por me fazerem aprender a pensar rápido e desenhar com menos enrolação. Aos meus professores daqui da Escuela de Arte Sótano Blanco: Manu Purdia (que vai expor aí em Olinda mês que vem), Gabriela Burin, Mariana Ruiz, Marco Baldi, Juan Bobillo e Mariano Diaz pela inspiração, pelos incontáveis conselhos e por me fazerem ter um olhar super novo e diferente ao meu trabalho. Sério, cês são foda! Aos conterrâneos Simone Mendes, Raoni Assis, Jora Zeroff e Débora Cabral pelos conselhos e inspirações. E aos amigos e família que tão sempre aí pra me dar aquele empurrãozinho extra quando dou uma fraquejada!
Parece até que ganhei o Oscar! Hahahaah Mas é que o caminho é duro mesmo, e quando rola a oportunidade de agradecer, gosto de fazer com gosto e com sinceridade! :D

Obrigada_ianah_web_1_905

 


Post escrito por mais de um colunista, um parceiro convidado, ou um artigo enviado por um de nossos leitores. Para colaborar conosco, ou sugerir alguma pauta, basta enviar um e-mail para contato@mz.rec.br.

RELATED POST

  1. Julianna Costa e Uyran Costa, olha isso!

    "[…] Geralmente eu sei que terminei uma arte quando eu me afasto dela, vou dar uma volta, vou tomar um chá e quando volto pra ver, não tenho vontade de mudar nada; ou acho que “se melhorar, estraga”.

  2. Julianna Costa e Uyran Costa, olha isso!

    "[…] Geralmente eu sei que terminei uma arte quando eu me afasto dela, vou dar uma volta, vou tomar um chá e quando volto pra ver, não tenho vontade de mudar nada; ou acho que “se melhorar, estraga”.

  3. Muito interessante a entrevista! E LINDAS as ilustrações! ^_^

  4. Ianah Maia | http://www.ianah.net é uma jovem pernambucana talentosa e comprometida com sua arte, assim como você, querida! Eu a acompanho através de sua mãe, Ivone Maia, que é uma amiga querida.

  5. Parabéns Ianah!!! Linda entrevista, maravilhosa em seu trabalho, sucesso!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

INSTAGRAM
ACOMPANHE NOSSAS NOVIDADES